Gostaria de partilhar sobre a postura bíblica perante o pecado. Usarei Neemias como nossa referência. Neemias é um exemplo de homem que seguiu a visão que o Senhor plantou em seu coração. Seguiu para Jerusalém destruída e desabitada para reconstruí-la . Após lutar contra diversos inimigos, como Sambalá e Tobias que o aterrorizam, enfrentar críticas de perto e de longe, finalmente concluiu sua missão. Com a cidade reconstruída e o culto a Deus restabelecido ele volta para prestar contas ao rei Artaxerxes. Após a prestação de contas regressa para Jerusalém e encontra um quadro bem diferente. Um grupo de influência se apropriou da dinâmica do culto a Deus, bem como das ofertas e dos dízimos, enviou para casa os levitas responsáveis pelo louvor ao Senhor e controlou o templo tornando-o uma fonte de lucro. Neemias, ao voltar, é procurado por este grupo que tenta lhe subornar. Com palavras honrosas tentam lhe convencer que ele é um deles e que esta apropriação não é indevida.

Neemias até então já havia enfrentado três tipos de ataques. Primeiramente um ataque vocacional quando Sambalá e Tobias lhe perguntam: “que é isto que fazeis ?” , ou seja, que loucura é esta que você pensa ser a visão de Deus? Deus não trabalha desta forma. Ou ainda quando lhe interpelam: “que fazem estes fracos judeus?” , ou seja, com que força e habilidade vocês imaginam reconstruir a cidade derribada de Jerusalém ? Tentavam aqui questionar sua vocação, a direção de Deus em sua vida e sua autoridade para empreender aquela grande tarefa.

Pertante este ataque vocacional Neemias reafirmou perante Deus o seu compromisso de vida e disse que “não declarei a ninguém o que o meu Deus me pusera no coração para eu fazer em Jerusalém” . Ou seja, ele manteve no coração a pureza do seu chamado. O chamado é a convicção que mantém o líder no trabalho, o pastor no púlpito e o missionário no campo. Sem a convicção de chamado, de Deus, não suportaremos as críticas e o dia mal.

O segundo ataque foi emocional.  Neemias por várias vezes acusou este ataque como em 6:19 quando diz que: “Tobias escrevia cartas para me atemorizar” ou ainda em  6:14 onde falar de “... Noadia e dos mais profetas que procuraram atemorizar-me”. O plano era aterroriza-lo e este é um dos ataques mais eficazes lançado pelo inimigo pois a ansiedade possui a capacidade de nos paralizar. A ansiedade, sobretudo a crônica, que se perpetua durante um longo período, tem a capacidade de drenar nossa energia, motivação, alegria e sonhos. Perante tal ataque Neemias também guardou o seu coração, chamou os amigos e leu a Palavra. Lições preciosas. Perante situações emocionalmente complexas não podemos estar sós bem como não podemos nos distanciar da Palavra, que aviva a alma.

O terceiro ataque foi espiritual. Quando Neemias persistia na visão de Deus e no seu chamado, houve uma mudança tática na atuação de Sambalá e este passou a usar um profeta para tentar dissuadi-lo. Neemias, porém, teve discernimento de Deus como mostra 6:12 quando ele diz que  “... Então percebi que não era Deus quem o enviara; tal profecia falou ele contra mim,  porque Tobias e Sambalá o subornaram”.

Notem que tal profeta era um profeta de Deus, porém comprado para falar da parte dos homens. Isto nos mostra que os maiores problemas da igreja vêm justamente da igreja. Que o inimigo é especialista em usar o povo de Deus contra o povo de Deus.

Normalmente quando um líder é atacado nestas áreas (ataque vocacional, emocional e espiritual) e permanece de pé, pela graça de Deus, o inimigo lança sobre ele um último ataque, que é o ataque moral.

Esta era a presente situação de Neemias. Após ter guardado o seu coração perante todos os ataques agora é exposto ao ataque moral onde lhe propunham colaborar e ursufruir da corrupção.

Perante tal ataque Neemias assume a postura de quem teme ao Senhor e faz aquilo que devemos fazer ao sermos tentados: ele radicalizou. E quando digo que ele radicalizou estou sendo literal. Descreve a Palavra a sua postura perante a tentação moral: “Contendi com eles, e os amaldiçoei, e espanquei alguns deles, e lhes arranquei os cabelos, e os conjurei por Deus” .

O que ele estava comunicando, em outras palavras, era: eu não permitirei que o pecado me prive da intimidade com Deus.

O pecado é um processo poderoso que conta com diversas armas para nos atrair e conquistar. Perante tais processos precisamos radicalizar, não negociando com ele, não dialogando com ele e, no temor do Senhor, nos afastando dele.

Se você, porém, caiu perante um destes ataques, ou outros, lembre-se que “assim diz o Alto e o Excelso, que habita na eternidade e cujo nome é santo: Habito num alto e santo lugar, e também com o contrito e humilde de espírito, para vivificar o espírito dos humildes, e para vivificar o coração dos contritos” . O Senhor está sempre pronto a perdoar e levantar o caído. É preciso, porém, que haja contrição e humildade. Reconhecimento e desejo de abandono daquilo que não vem dEle. É preciso identificar o tipo de ataque se é lançado contra a sua vida, orar a Deus neste momento pedindo Sua misericórdia e graça, ser fortalecido para que não caia, ou se perdoado se caído estiver, e, de pé tão somente pela graça de Deus, caminhar pois há muito ainda a ser construído.

Percebo que por vezes não fazemos uma clara distinção entre uma enfermidade psíquica e uma atitude pecaminosa, o que pode causar sérios danos no acompanhento daquele que está em sofrimento. Tanto o pecado quanto a enfermidade, e toda imperfeição, advém da queda. Porém, há (e devemos entender isto) uma clara distinção entre o pecado e a enfermidade pois o primeiro é um processo que necessita de quebrantamento e perdão enquanto o segundo necessita de compreensão, tratamento e cura.

Encontrei-me com um missionário que sofria com o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) já por anos. Ele compartilhou que mesmo em sofrimento, durante anos foi capaz de liderar uma equipe missionária em um dos países mais árduos na Europa. Durante quase 12 anos estava envolvido no ministério procurando omitir de todos seu problema psíquico. Passou a se isolar para esconder as várias manias das quais não conseguia se livrar e chegava a passar toda a noite repetitivamente verificando se a porta de seu apartamento estava fechada, um dos seus rituais. Finalmente resolveu abrir seu coração em um encontro de líderes. Enquanto falava partilhou que seu maior temor era a possibilidade da percepção dos outros perante este problema, talvez vendo-o como um pecador indolente e não como alguém enfermo abatido. Foi abraçado por vários outros líderes que vivenciaram este e tantos outros problemas psicoemocionais, e passou a ser acompanhado por um psicólogo cristão que o levou, após algum tempo, a uma celebrada recuperação.

O TOC, como também a depressão e diversas outras enfermidades psíquicas podem ser facilmente confundidas com posturas pecaminosas se observadas de maneira superficial. Várias ações advindas de pessoas com tais transtornos precisam ser encaradas como fruto da enfermidade e não do pecado. A psicanálise ajuda com a terapia proposta, apesar de sua abordagem se concentrar na anulação da culpa moral para a facilitação da cura, o que pode causar estragos em outras áreas da vida.

Nós cristãos, porém, precisamos observar com cuidado esta linha divisória a fim de tratarmos a enfermidade dos enfermos e o pecado dos pecadores. No ótimo artigo Combatendo a Ansiedade lemos que “É certo que as enfermidades psíquicas, bem como outras formas de imperfeição humana, provém da queda e podem, em si, levar a atitudes negativas e pecaminosas em um segundo momento” . Meu desejo aqui, porém, é tão somente leva-lo a perceber a diferença entre estes dois estados da alma humana.

C.S.Lewis nos ajuda a compreender este quadro quando afirma que  “o material psicologicamente mau não é um pecado, mas uma doença. Não é preciso que alguém dele se arrependa, mas que seja curado. E, diga-se de passagem, isto é muito importante. Os homens julgam-se uns aos outros por seus atos exteriores. Deus os julga por suas escolhas morais” .

O primeiro passo, neste caso, é dimensionar o problema. Se moral ou psíquico. Em segundo lugar procurar a ajuda certa. Em ambas as situações o aconselhamento cristão é a melhor arma mas na segunda deve-se, também, procurar o tratamento psicológico ou psiquiátrico com um especialista.  Maior a clareza sobre isto mais rápida a recuperação.

Gedson Lidório nos alerta que “muitos cristãos se esforçam para sair do quadro de ansiedade sem, no entanto, resolver a questão. Da repressão surge a angústia que é interpretada organicamente” . Como ansioso, antes, desejava ver resolvido o motivo da ansiedade. Agora, angustiado, chama por um médico para resolver seus problemas que supõe serem físicos. Destas considerações podemos deduzir uma regra simples: enfrente a ansiedade da maneira correta. Isto é explicado por Lopez: “ Se, em virtude de um intenso esforço de repressão, desaparece o elemento ideológico da ansiedade e se reforçam as vivências orgânicas que o acompanham, veremos aparecer em seu lugar a angúsita” .

Além da ansiedade e angústia devemos cuidar para não cairmos na depressão. Um dos passos para tal é desenvolvermos uma mente realista que mede as preocupações com uma régua verdadeira e não simplista ou superfaturada. A depressão é um mal que, quando já desenvolvido, pode nos limitar profundamente. Assim, deve ser tratada de forma aberta e objetiva. Conheço líderes que superaram o insuperável em suas vidas e trabalho mas sucumbiram perante a depressão. É necessário identificar seus sinais, buscar a força do Senhor, não caminhar só e perceber que Aquele que nos salva e cura também pode nos devolver a alegria. O choro pode durar uma noite, mesmo que noites longas, mas a alegria, no Senhor, vem pela manhã.

Perante a ansiedade, angústia e depressão, uma boa ferramenta de prospecção é falar consigo mesmo. Davi a usou abundantemente e devemos imitá-lo. Ele dizia no Salmo 116 “Bendizei, ó minha alma ao Senhor; Volta, minha alma, ao teu repouso, pois o Senhor te fez bem. Pelo contrário, tenho feito acalmar e sossegar a minha alma; qual criança desmamada sobre o seio de sua mãe, qual criança desmamada está a minha alma para comigo”. O livro de Lloyd-Jones, “Depressão Espiritual ” tem sua base inicial no segredo de sabermos conversar com nossos próprios corações.

Particularmente gosto da manifestação pública dos Alcóolatras Anônimos quando dizem: “ Deus, concede-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; a coragem para mudar as coisas que posso; e a sabedoria para saber a diferença ”.

Enfrente sua ansiedade, angústia ou depressão de forma clara perante o Senhor. Aquele que nos livra do câncer e das dores musculares também pode curar a nossa alma e alegrar o coração. Reconheça que você precisa dEle e o busque. Seja na queda moral, no conflito da alma ou na enfermidade psíquica, a intimidade com o Senhor nos fortalecerá.

.